Como a notação é feita
A linguagem única do xadrez
Xadrez é um dos jogos de estratégia mais antigos e populares do mundo. Além de se destacar pela complexidade, ele também criou linguagens especiais para que os fãs explorem e compartilhem seus estudos sobre o jogo.
A verdade é que o xadrez não é jogado apenas no tabuleiro: ele também é escrito, analisado e transmitido. Os jogadores, movidos por essa necessidade, inventaram as notações de xadrez.
Com o tempo, os jogadores passaram a usar diferentes sistemas de notação para registrar jogos.

As duas mais importantes foram a notação descritiva e a notação algébrica.
Se você não sabia como as notações funcionam e por que são tão importantes, neste artigo explicamos como elas surgiram, como funcionam e por que uma acabou substituindo a outra.
O que é notação no xadrez?

O xadrez não é chamado de esporte científico por acaso.
Esse jogo precisa de estudo e prática constantes para ser jogado corretamente.
Mas tanto a teoria quanto a prática precisam de algo… uma forma de registro. Se não houvesse possibilidade de registrar movimentos, seria impossível que o estudo do xadrez tivesse avançado como tem feito até agora.
Portanto, em resumo, a notação no xadrez é simplesmente o registro dos lances feitos em uma partida. A notação converte os movimentos em palavras ou símbolos.
Mas, de certa forma, compor uma trilha sonora para um jogo também é como escrever uma história. Cada movimento é registrado, permitindo que cada jogador estude o jogo depois, compartilhe ou o rejogue em um momento posterior. Revise os erros deles ou decore seus sucessos.
Imagine um movimento simples, como “mover o peão do rei duas casas para frente.” Hoje, geralmente é escrito como e4, embora antes também fosse escrito como P-R4.
Qual a diferença? Depende do tipo de notação usada. Mas antes de explicarmos os detalhes, vamos ver como chegamos lá.
História da notação no xadrez
O xadrez é um dos poucos jogos antigos que desenvolveu sua própria linguagem para registrar cada lance.
Mas como começou o hábito de marcar jogadas?
Por séculos, os jogos não foram registrados com símbolos ou letras, mas usando linguagem cotidiana, ou seja, com longas descrições.
Segundo H. J. R., Murray, autor de A History of Chess (1913), os persas, no século IX, já descreviam seus movimentos dessa forma informal.
Em outro manuscrito muito famoso, da Idade Média, o Livro dos Jogos de Afonso X (1283), as peças foram escritas em formato de prosa. Por exemplo: “o alferes se move para a casa à frente do rei”.

Fonte: Wikipédia
Esse tipo de texto podia ser útil para aprender, mas era impraticável para estudar jogos inteiros.
No século XVI, com o desenvolvimento da imprensa e o surgimento dos tratados impressos, uma notação mais técnica começou a ser utilizada.
Entre os séculos XIX e XX, surgiram os sistemas de notação de xadrez mais importantes. Como por exemplo, o sistema de Forsyth, inventado pelo escocês David Forsyth, um sistema complexo que servia, segundo o Larousse do xadrez: “indicar uma posição em uma forma muito condensada”.
Sua particularidade é que não apenas descrevia um movimento, mas também nos permitia saber a posição de todas as peças no tabuleiro.
A notação postal (também chamada de notação Koch) também foi criada, sendo usada principalmente em jogos por correspondência.
Por fim, foram criados os dois sistemas mais importantes: notação descritiva e notação algébrica.
Sobre o primeiro, não há informações claras sobre seu criador. Mas ele dominou o mundo do xadrez até bem dentro do século XX. Nele, cada movimento é descrito do ponto de vista do jogador. Por exemplo, “P4R” significa “peão na quarta casa do rei”.
Em contraste, a notação algébrica é do século XVIII, também conhecida como notação francesa e foi criada por Philippe Stamma. Segundo o Larousse do Xadrez: “ele o usou pela primeira vez em sua obra, O Nobre Jogo do Xadrez, que apareceu em 1745.”
Neste sistema, as colunas são identificadas pelas letras (a–h) e as linhas pelos números (1–8). Assim, “e4” simplesmente significa que um peão foi para a casa e4.
Essa forma ganhava terreno devido à sua clareza e, desde meados do século XX, graças ao impulso da FIDE (Federação Internacional de Xadrez) que a exigia em seus torneios, tornou-se assim o padrão internacional.
Notação descritiva: a primeira linguagem universal do xadrez
Por séculos, especialmente em países de língua inglesa e espanhola, a notação descritiva foi usada.
Esse sistema descreve os movimentos de acordo com a peça, sua posição relativa e o movimento que ela faz.
As caixas no tabuleiro são designadas nomeando primeiro a linha e depois a coluna. As fileiras são numeradas de 1 a 8, cada lado numerando-as a partir da primeira fileira. Cada coluna recebe o nome da peça que ocupa a extremidade inferior da coluna no início do jogo.

Por exemplo: A coluna à frente do rei é chamada de coluna do rei. A coluna à frente da rainha é chamada de coluna da rainha. As colunas ao lado são chamadas de cavalo do rei, bispo do rei, etc.
P-R4 significa “peão na quarta casa do rei“, ou seja, o peão do rei se move duas casas, que hoje geralmente é escrito como e4. Por outro lado, C-RA3 (cavalo para a terceira casa do bispo do rei) hoje seria Cf3. E BxD: “o bispo captura a rainha“.
Um exemplo de abertura em notação descritiva:
1. P-K4 P-K4 2. N-KB3 N-QB3 3. B-B4 B-B4
Em notação algébrica, seria:
1. e4 e5 2. Cf3 Nc6 3. Bc4 Bc5
Esse sistema tinha algumas vantagens e desvantagens. Entre as vantagens, podemos dizer que o sistema tem um estilo narrativo, mais natural para alguns.
Entre as desvantagens está o fato de a notação ser mais longa. Além disso, isso pode causar confusão, como visto na imagem acima, o mesmo quadrado tem dois nomes diferentes, dependendo se você está brincando com branco ou preto.
Notação algébrica: o novo padrão
A notação algébrica é mais simples, direta e precisa.
Hoje, é a forma padrão de gravar jogos ao redor do mundo. E, segundo algumas entradas da Wikipédia, foi oficialmente adotado pela FIDE em 1981.
Como funciona? Cada coluna tem uma letra: da letra “a” ao “h” (da esquerda para a direita do ponto de vista do branco). Cada linha tem um número: de 1 a 8 (de baixo para cima para o branco).

As peças são representadas com letras: R = rei (em inglês com K em rei), D = dama (em inglês em inglês com Q em dama), T = torre (em inglês com R em torre), A = bispo (em inglês com B em bispo), C = cavalo (em inglês com K em cavalo).
Os peões não são nomeados com letra, apenas a caixa é indicada. Por exemplo: d4: peão para a casa d4.
Outros exemplos de como as peças são nomeadas são:
Cf3: cavalo para f3.
Bxc4: O bispo captura em c4.
Um exemplo completo:
1. e4 e5 2. Cf3 Nc6 3. Bb5 a6 4. Ba4 Nf6 5. O-O Be7
Essa seria a abertura espanhola, uma das mais estudadas no xadrez.
Além disso, há outros movimentos e comentários que têm sua própria notação. Por exemplo, para encarar curto (do lado do rei) você usa: O-O. E para o castelo longo (lado da rainha) usa-se: O-O-O.
Na imagem a seguir está uma lista completa dessas notações:

Por que a notação descritiva foi abandonada?
A transição foi lenta, mas inevitável. À medida que o xadrez se globalizou e informatizou, a notação descritiva começou a parecer trabalhosa.
Os livros de xadrez começaram a usar notação algébrica porque era mais clara, ocupava menos espaço e facilitava o ensino. Hoje, exceto em edições muito antigas ou por razões nostálgicas, a notação descritiva não é mais utilizada.
Graças à notação algébrica, qualquer jogador no mundo pode ler um jogo, independentemente da língua que fale.
Um russo, um argentino e um japonês podem discutir o jogo Kasparov–Topalov, Wijk aan Zee 1999, sem dizer uma única palavra em comum: eles apenas olham para os lances indicados.
Isso faz da notação xadrez a linguagem universal do xadrez e através da qual gerações e países se conectam.
Notícias
Hoje, a notação algébrica é o padrão não apenas em livros, mas também em plataformas como Lichess ou em programas de análise como Stockfish ou ChessBase.
Até mesmo o famoso formato PGN (Portable Game Notation) que os computadores usam para salvar partidas é baseado nele.
Em conclusão, a notação de xadrez não é apenas uma forma de escrever movimentos: é uma ferramenta de memória, estudo e comunicação.

