Técnicas para melhorar o cálculo no xadrez (2ª parte)
Você ainda acha que precisa melhorar seus cálculos no xadrez e não sabe por onde começar? Você veio ao lugar certo!
Na primeira parte deste especial sobre cálculo, expliquei que, na primeira fase, o que precisamos fazer é decidir se é necessário calcular ou não, e somente se for necessário calcular (já que nem sempre é necessário) dedicar algum tempo a isso.
Quanto maior nossa experiência como jogadores, mais inconsciente será esse processo. Um jogador de alto nível terá a resposta automatizada e nem perceberá que está optando por ela, mas iniciar o processo de cálculo é uma decisão racional e calcular pode ser ainda mais.
Também ouso dizer que, mesmo que seu nível seja muito alto, será bom para você tomar consciência desse processo, ou seja, saber que ele existe e que todos nós temos a opção de calcular ou não.
“Há um espaço entre o jogo do adversário e nossa resposta. Sempre existe esse espaço”
ANEDOTA:
Diz a lenda (que não consegui verificar documentalmente) que Mikhail Tal ocasionalmente frequentava aulas de xadrez com crianças. Aulas do ensino fundamental que lhe permitiam se reconectar com os conceitos básicos que governavam o jogo, apesar de ele já ser campeão mundial. Dessa forma, seu jogo, que já tinha o nível do Campeão Mundial da época, reorientou-se e conectou-se com o essencial do xadrez. Por esse motivo, e porque já passei por isso, considero que não é má ideia redescobrir nosso jogo em explicações de conceitos conhecidos.
MORAL: Até as lições mais básicas são úteis. Seja qual for o seu nível.
Tudo isso é ótimo, mas quero saber mais… Como posso melhorar meu cálculo?
Depois de decidirmos calcular, devemos escolher nossos movimentos candidatos. Todos os movimentos candidatos, sem exceção, devem ter uma ideia estratégica por trás (ou um golpe tático que será resultado de um plano anterior), portanto, antes de procurar possíveis movimentos, você deve pensar em possíveis ideias. Como assim?
Quero dizer que não devemos calcular de forma bruta, aleatória e indiscriminada. Isso só gera fadiga. Logicamente, nem sempre encontraremos um resultado válido, mas é muito pior calcular sem um método do que calcular com um método mesmo sem resultado.
Dicas para encontrar boas ideias antes de começar a calcular:
Encontre padrões táticos na posição. Essa é uma das formas mais fáceis de encontrar ideias e traz excelentes resultados na resolução de posições táticas. Trata-se de aplicar os princípios que regem uma posição mais simples a uma posição complexa e, a partir dessa hipótese, avaliar se ela funciona.

Vou explicar com um exemplo super simples. Se você tivesse que jogar nessa posição, não teria dúvidas. Há poucas peças, poucas opções e o mate é óbvio:
Por outro lado, nessa posição as coisas são um pouco mais difíceis, embora na realidade isso se baseie na mesma premissa. Se você conhecer primeiro o padrão mate (o simples), vai encontrar facilmente a solução e começar a calcular.
Como você jogaria com Preto?

Tal sempre foi bom nessas posições.
Aqui está o jogo completo com a solução. Você pode baixar o jogo completo aqui.
1.Cf3G62.g3BG73.Ag2D64.d3E55.e4Nc66.Nc3Match77.Be3O-O8.Qd2ND49.Ne2Ah310.Nfxd4Bxg211.Rg1EXD412.Nxd4C513.Nb5Bf314.g4D515.Bxc5Rc816.Ba3dxe417.dxe4Qb618.Axe7DXB519.Bxf8DXB220.Bxg7KXG721.Rc1
21…Rd8!Muito boa jogada! Se a dama branca não existisse em d2, as pretas poderiam jogar Qxc e fariam mate como no exemplo simples.22.Qe3Ah, White se recusa a perder sua torre. Ele não aceita, com bom julgamento, o sacrifício. Mas agora…22…Qxc2!23.Kf123.Rxc2Set1#23…Rd1+E o preto vence, dá pra ver, né?0–1
Use a intuição. No xadrez entre humanos, a intuição é uma ferramenta perfeitamente válida para criar boas ideias. Claro, isso não deve ser desculpa para não gastar tempo analisando seriamente uma posição.
Uma boa ideia é confiar na intuição, especialmente se a frase sugerida nos oferecer como compensação pela insegurança do rei rival, apesar do material. A insegurança do rei é um dos fatores mais importantes no xadrez, talvez o mais importante.
Use a técnica dos “quadrados ideais”. Imagine se você pudesse colocar as peças no tabuleiro onde quisesse, mesmo que tivesse que se mover várias vezes na sua vez para isso. Você pode organizá-los nos quadrados mais idílicos de todos: cavalos em pontos fortes apoiados por um peão, bispos em diagonais onde não colidem com seus peões, torres em colunas semiabertas, etc… Faça essa projeção mental na sua cabeça, planeje onde colocar suas peças e, a partir desse design, tente pensar em mecanismos para realizar essa melhoria das peças. Ao fazer esse plano mental, você descobre planos baseados nas possibilidades estratégicas da posição. É uma técnica muito eficaz.
Para completar este artigo, preparei um vídeo com uma explicação muito simples dessas técnicas. Recomendo que você assista, pois vai te ajudar muito. Mas primeiro, Olhe para essa posição, tente encontrar um bom movimento, mas ele precisa ser apoiado por uma boa ideia (sabe, não existem bons movimentos sem boas ideias):

Como você jogaria com Branco?
A solução está nesta lição que preparei para você.

Também deixo vocês com os outros artigos relacionados ao cálculo, que vão ajudar você a elevar seu nível de jogo.
